Polícia da PB investiga desvio em renda de jogos : ” Tem que meter a mão “

O artigo sétimo do Estatuto do Torcedor torna obrigatória a divulgação da renda obtida pelos clubes com o pagamento de ingressos em qualquer partida do futebol brasileiro. A credibilidade deste número, no entanto, pode ficar em xeque a partir de uma investigação da Delegacia de Defraudações e Falsificações da Polícia Civil da Paraíba. Lançada em 9 de abril para investigar irregularidades e condutas criminosas no futebol do Estado, especialmente manipulação de resultados, a “Operação Cartola” agora analisa escutas telefônicas que indicam desvio de ingressos e fraudes na divulgação de rendas de jogos.

O caso investigado é proveniente, segundo a Polícia, de uma conversa entre Breno Morais Almeida, vice-presidente de futebol do Botafogo-PB, e o empresário Alex Fabiano dos Santos, que lida com o interlocutor como se fosse em nome do CSA, clube alagoano que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro. Alex, inclusive, será ouvido nesta terça-feira sobre sua relação com o CSA e uma declaração que chamou atenção dos investigadores em gravação a que o UOL Esporteteve acesso: “No nosso CSA aqui a renda deu, fora o sócio-torcedor, R$ 600 mil, fora o sócio, certo? Mas divulgou R$ 400 mil”.

A partida em questão foi disputada entre CSA e São Paulo, em 15 de fevereiro de 2018, pela segunda fase da Copa do Brasil. A organização divulgou público pagante de 14.705 pessoas (mais 1.565 não pagantes) e renda de R$ 419.504,00. De acordo com as declarações que estão em investigação, o valor real arrecadado foi bem superior. Este montante é que poderia ter sido desviado em um esquema de fraude na divulgação da renda da partida.

Adiante, o procedimento teria sido repetido pelo Botafogo-PB em partida contra o Atlético-MG, pela segunda fase da Copa do Brasil, em 21 de fevereiro. O clube que tem Breno Morais Almeida como vice-presidente de futebol vivia a expectativa de atrair melhores públicos ao estádio Almeidão em razão da contratação do experiente goleiro Saulo, ex-Santos. Na conversa com Alex Fabiano, Breno supõe divulgar aos torcedores números menores do que o real em relação a ingressos vendidos.

“O cara (goleiro Saulo) tem essa fama aí no Sul e é pouco conhecido aqui, para não ter muito oba-oba. Vai ter oba-oba ele jogando, mas na chegada dele, na véspera do jogo contra o Atlético, já vendeu 5 mil ingressos. A gente já vendeu e ainda falta amanhã. Dos 5 mil ingressos deve ter uns mil sócios, então vendeu 4 mil ingressos já. Eu acho que vai vender uns 10 mil ingressos, 9 para 10 mil, vendidos mesmo, sabe? Só que a gente tem que passar a mão na renda, né? Porque essa renda é 50% a 50% ou 60% a 40%”, disse, na ligação, Breno Morais, antes de completar indicando supostas estratégias de atuação: “Amanhã de manhã vou providenciar isso. ‘Ó, essa venda antecipada aqui não tem para ninguém não, não fez foi nada’. Vou tirar pelo menos 2 mil a 3 mil ingressos eu vou tirar.”

Divulgação/Polícia

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Operação Cartola investiga condutas criminosas envolvendo a Federação Paraibana

O Botafogo-PB foi procurado na última sexta-feira, pediu prazo até segunda, mas não enviou respostas a quatro questionamentos da reportagem até o fechamento da publicação. O CSA, em resposta ao pedido de posicionamento, disse que só atenderia se tivesse posse do áudio completo, apesar de ter tido acesso aos trechos em que o clube é citado. “São acusações gravíssimas e desconhecemos de tal forma que o CSA só vai se posicionar tendo acesso integral ao áudio e qualquer outro documento” foi a resposta do departamento de comunicação do clube, que ainda falou em “acusações infundadas”.

Após a publicação da matéria, o clube divulgou uma nota oficial. “Recebemos com surpresa a notícia de que o CSA foi citado nas conversas noticiadas pelo site. Nesses pouco mais de três anos de gestão do Resgate do Azulão nosso trabalho sempre foi pautado por ética e dignidade, com todas as demonstrações financeiras apresentadas e aprovadas pelos nossos Conselhos Deliberativo e Fiscal. Temos um sistema eficiente de venda de ingressos que impede qualquer pessoa, ligada ao clube ou não, de fraudar qualquer tipo de relatório financeiro e nos colocamos à disposição para mais explicações. Somos um clube campeão brasileiro, com três acessos em três anos seguidos, atual campeão alagoano e estamos fazendo um ótimo início de Série B, não por acaso. Todos os nossos resultados positivos são consequência do trabalho sério e correto que desempenhamos fora de campo. Por fim, informamos que o CSA não foi notificado oficialmente por nenhum órgão de segurança, mas está disposto a esclarecer qualquer situação”, diz o conteúdo assinado por Raimundo Tavares, presidente do Conselho Deliberativo, e Rafael Tenório, presidente executivo do clube.

Alex Fabiano confirmou a realização do interrogatório e se deslocará de Maceió a João Pessoa porque “quem não deve não teme” e está “tranquilo, encarando normalmente”. “Quando trabalhamos no futebol recebemos ligações perguntando como é, como são as coisas. Conheço o Breno desde 2011, ele sempre liga para mim, fui pego de surpresa, mas não posso desligar o telefone na cara de um dirigente com quem me dou bem na parte de trabalho e de amizade”. Sobre a questão dos ingressos, o empresário disse que “não é diretor de federação, nem diretor de clube” e as declarações são “resenha de quem não tem o que falar, bobagem”.

A gravação a que o UOL teve acesso tem quase 16 minutos de duração. Durante o papo, a voz atribuída a Alex Fabiano reclama de o CSA já ter inscrito, naquela ocasião, o limite de 33 jogadores no Campeonato Alagoano e critica Raimundo Tavares, presidente do Conselho Deliberativo do clube, por ter prometido mais reforços para a Série B: “É vaidade”. A ligação ainda contém ironias ao técnico Marcelo Cabo e a um jogador chamado Talisson, que foi titular do CSA contra o São Paulo. O papo chega ao caso dos ingressos quando uma matéria publicada por um portal de São Paulo em tom positivo sobre o goleiro Saulo ganha elogios. Depois disso é que Breno diz que Saulo pode atrair mais público e renda ao Almeidão.

A partida entre Botafogo-PB e Atlético-MG, um dia depois do anúncio da contratação de Saulo, teve público pagante de 11.740 pessoas, não pagante de 2.245 pessoas e renda de R$ 238.064,00. Segundo os números divulgados pelo clube.

De acordo com o artigo 41-G do Estatuto do Torcedor, “fornecer, desviar ou facilitar a distribuição de ingressos para venda por preço superior ao estampado no bilhete” rende pena com “reclusão de 2 (dois) a 4 (quatro) anos e multa” e “a pena será aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o agente for servidor público, dirigente ou funcionário de entidade de prática desportiva, entidade responsável pela organização da competição, empresa contratada para o processo de emissão, distribuição e venda de ingressos ou torcida organizada e se utilizar desta condição para os fins previstos neste artigo.”

Fonte: BOL